terça-feira, 17 de junho de 2008

Doçura


Há ventos do sul soprando as minhas folhas secas no quintal. Há sinos de açúcar cantarolando livres no meu pensamento. Eis que a trégua teve fim. Meus deuses já me enviam a semente, a terra, a chuva. Agora eu preciso plantar a flor. Preciso regá-la com desejo púrpura. Sei de lembranças na minha íris que denunciam o meu desejo. Eu estou nua. Não acho mais minha saia de tule...

Minhas asas estão prontas pra tocar teus sonhos de menino bobo, menino bandido, que rouba beijos de cetim das maricotas da vizinhança. Mas há tanta ternura dissolvida nos teus lábios, tanto papel de seda azul embrulhando teus anseios, há um tanto de tudo em você, que chega a bagunçar meus livros já tão dispostos na estante. Já não sei mais onde estão os romances, os contos, meus livros de receitas e de histórias infantis. Os versos se misturaram. As palavras estão disformes na minha poesia.

Ouça o meu sussurro de alfazema: deguste meus segredos, meus medos, minhas dúvidas. Me segure pelos braços. Me leve para o esconderijo quente da tua alma e me ofereça um gole do teu chá. Eu preciso tecer o meu sossego. Colorir a minha brisa e perfumar minhas rimas com o teu cheiro.

Hoje eu preciso ser tua princesa.
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Pâmela Melo

terça-feira, 3 de junho de 2008

Covardia

foto: Paulo Pereira

Hoje eu quero tocar na ferida nua, preciso tatear os vãos dos sentidos e fazer chorar a mansidão do teu signo. Se há fronteiras entre as tuas estrelas e meus pergaminhos eu já não sei, aliás, eu cansei de saber, não me importam as horas, as tabuadas, os acentos, as crises, as notícias. Eu só quero agora, crua e cigana, a rosa entre os dedos, quero vê-la sangrar em pétalas de sensações e labaredas.
Preciso com urgência que você roce em meu seio, que se prenda em minhas pernas. Eu necessito perder o fôlego para poder respirar, sentir teu peito ofegante, gemendo de explosões.
Eu quero ser deflorada ferozmente. Abundância de dedos alheios que me façam sentir cada nudez de meus poros, e que depois, naveguem nas águas quentes do meu riacho. Tenho que alimentar as línguas, banhá-las do mais puro mel que brota em mim.
Quanto apetite rasgado na minha saia rodada!
E eu me perco nessa fartura de desejos que assombram a minha racionalidade tão pueril. A falta de coragem do mundo de comungar no nu do meu umbigo soa como um estúpido eco que se repete a cada gota do meu suor quando se depara com o chão dessa realidade tão morna.
Há um desamparo das minhas emoções, e eu estou me fatigando dessa ciranda sem roda, já tateio meu cio na angústia da espera da coragem alheia (ou talvez a minha própria). Ousadia e saliva: eis a minha gula.

Eu só quero um bocado do teu doce!

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Pâmela Melo



Obs.: Eu sei que preciso ser mais corajosa para poder implicar com a covardia do mundo...




sábado, 31 de maio de 2008

Cor-de-rosas

foto: Luiza Azevedo

Há mulheres que os búzios não dizem nada de novo, apenas trazem recordações do futuro. Há princesas que se mostram feras com simples tino da lua, nas noites em que homens apenas não são capazes de deixá-las nuas. Há fêmeas lúbricas e delicadas que dão suas crias por amor e o corpo pelo simples gozo, prazer preso no instinto. Há algumas damas sutis que, vitimadas do amor tão nobre, tão melindroso, suas veias femininas explodem de loucura, e assim, elas tornam-se damas secretamente lascivas e profanas. Existem meretrizes que por debaixo da saia guardam sonhos, afagos e bonecas, e o que mais desejam é alguém que as faça dormir em noites de tempestades. Conheço fadas que não são pueris, nem meninas, nem ingênuas, são ninfas que deixam nuances carmim no ar, elas ardem labaredas e inventam volúpias com suas varinhas de condão. Há muitas Deusas besuntadas de mel e rosas que chovem tempestades arredias quando suas almas guerreiras insistem em fragilidades tão femininas, inseguras. Sei de virgens que hipnotizam desejos: eles se rendem a elas, e, timidamente, elas penetram nos prazeres, um a um, rasgando todos os véus da pureza.

E eu, secretamente te confesso: ELAS são o império firmado nos mistérios, a insistente reticência pulsante, que arde e sangra a cada dança da lua.


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Pâmela Melo


Obs.: Eu estou tão dona de mim que só o vento sabe meu paradeiro e como rastro deixo apenas meu cheiro de menina, minhas pétalas de mulher. Por isso, não se assuste com minhas unhas vermelhas e meu ar de entrega: a minha lucidez é tua amiga e o meu frenesi é a minha paz!

Carinhos """

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Mudanças


Rasguei toda seda e me lancei na ponta de um pé de vento.
Decidi não me cobrar respostas óbvias e ações coerentes.
Agora eu danço no escuro, me pinto de sol,

brinco com cada botão de rosa do meu corpo e bebo as estrelas do céu.
Quando a alegria é grande eu choro. Se o humor é amargo, eu durmo. As unhas do pé estão vermelhas, o cabelo elegante na displicência e a língua sedenta de fertilidade, daquelas que brotam o desejo.
Eu não aceito mais não. Eu aceito paixão. E decidi me apaixonar todo dia, mesmo que depois venham as lágrimas, eu não mais as temo.
Eu corro riscos. Exatamente. Subo o morro pra beijar o santo no terreiro. Ergo a blusa pro prazer. Abaixo as armas pras minhas vontades-de-marfim.

Eu já não me questiono em noites de insônia. Agora eu me acalento.
Troquei o perfume e o lençol. Lavei o all star. Arrumei os armários e descolori meus pêlos.
De hoje em diante eu sou gargalhadas e sementes.

Quero água doce pra matar a sede, beijos de caramelo pra nascer prazer da luz dos meus encantos.

Creia-me, eu já sou a coragem das flores e a lucidez com vertigens.


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Pâmela Melo


domingo, 13 de abril de 2008

Canção




"Nestas linhas sim,


eu me deixo traduzir.


So-le-tra-me então,


com a ponta dos


teus dedos."
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Pâ Melo

sábado, 29 de março de 2008

Zéfiros e furacões


Há dias em que me detesto. Busco incessantemente qualquer pré-texto bobo (e pré-conceito também) para me findar no escuro do meu quarto de dentro, nos ares gélidos de minha auto-piedade. Nesses momentos eu ordeno guerra íntima, úmida de lágrimas e saliva, de arrebatamentos e loucuras. E, aí eu chovo, me planeio nuvem pesada no céu e caio líquida no vento. Pronto. Eis que a paz volta ao lar volúvel.

Mas, paz demais não me faz bem. Dá-me uma sensação de inércia, monotonia, e, eu quero a vida, o movimento, as emoções marcando todos os passos, se transbordando ávidas para qualquer vagabundo solto na noite. Aí, eu ordeno guerra íntima, úmida de lágrimas e saliva, de arrebatamentos e loucuras...


Descobri que eu só danço na tempestade, as garoas me dão sono.


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Pâmela Melo




Obs.: Só para que fique registrado, hoje, por enquanto, a paz reina aqui dentro!rs


Ah! E feliz outono pra todos!!!!

sábado, 15 de março de 2008

De nós dois

Foto: Carla Salgueiro

Hoje a viagem foi lenta. As tuas mãos me conduziram para as mais belas paisagens e me deram carícias de presente. Eu me envolvi com teu corpo e me esqueci das horas, dos dias, da bagunça de nossas vidas. Já na madrugada alta do nosso enlaço eu quis dançar pros teus caprichos e nosso ritmo foi frenético e doce.
E, é nesse filme de cores que teus olhos me soletram, e, eu bem entendo que é nas minhas vírgulas que você se perde. Então, já embriagada pelo teu cheiro viril, te seguro pelos pulsos e te ensino as parábolas da nossa história, esse passado tão dentro de nós, e tantas luas novas vivificadas no êxtase do teu encaixe no meu quadril.
E eu te guardo nos meus seios de menina amanhecida,
e você, me refazendo pérola, me abriga nas conchas quentes das tuas mãos.

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Pâmela Melo


Obs.: Eu, às vezes, preciso me vestir de futura realidade para (des)fazer minhas fantasias, tão.

Notas passadas